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O grito do Coletivo Caranguejo Tabaiares pelo direito de resistir e existir

Nascida e criada em Caranguejo Tabaiares, comunidade centenária e pesqueira localizada em meio a área nobre de Recife, Sarah Marques do Nascimento, 40 anos, acompanhou ao longo de sua vida o descaso de governos com as mais de 5 mil famílias que habitam o local. A comunidade que vive às margens do rio Capibaribe, além The post O grito do Coletivo Caranguejo Tabaiares pelo direito de resistir e existir appeared first on FNA.Read More

Nascida e criada em Caranguejo Tabaiares, comunidade centenária e pesqueira localizada em meio a área nobre de Recife, Sarah Marques do Nascimento, 40 anos, acompanhou ao longo de sua vida o descaso de governos com as mais de 5 mil famílias que habitam o local. A comunidade que vive às margens do rio Capibaribe, além de falta de infraestrutura sanitária ao longo dos anos, em 2018 sofreu um enfrentamento direto da prefeitura: a gestão queria retirar parte das famílias do local para a abertura de uma via para desafogar o trânsito da cidade.

Naquele ano Sarah trabalhava em um shopping, mas a ameaça a sua comunidade despertou nela o desejo de lutar.  Como ela mesma diz, gritou muito pelo direito dos moradores, e foi esse mesmo grito que a trouxe de volta às suas origens e a levou para o trabalho de defesa da sua comunidade. Dali para frente, criou e coordenou o movimento Caranguejo Tabaiares Resiste, com o apoio dos moradores, num movimento que cresceu e se fortaleceu pelo direito de existir por meio de muita resistência.

Filha de Siraquitan e Norma, que se conheceram e se casaram na mesma comunidade, e mãe solo do casal de gêmeos Rafael e Juliana, 14 anos, Sarah conta que o seu despertar veio quando dona Maria, uma moradora que a viu nascer, foi procurada pela prefeitura para assinar um contrato para se retirar de sua casa e ocupar um espaço a 7 quilômetros dali, ou ser indenizada pela benfeitoria. “Ela disse que não ia sair, e foi ali que começamos a criar o movimento. Fomos para a rua, fizemos abaixo assinado, estivemos no Ministério Público, seguimos a prefeitura em todos os lugares. Expulsamos a prefeitura de lá com o recado que de lá só sairia quem quisesse, e não sob pressão”, conta. No Ministério Público ela recorda que a defensora não se dirigia a ela, apenas aos ‘doutores’. “Como uma representante mulher, negra e favelada, não era ouvida,  mas lembro que falei que quem conhecia a realidade local era a própria comunidade.”

A luta pelo território e pelo direito de existir e resistir foi grande, a prefeitura recuou mas acabou por decretar que a área pretendida era de utilidade pública, ou seja, teria plenos poderes para indenizar e mandar embora quem quisesse. Mas a força da comunidade e do coletivo em construção acabou por derrubar também o decreto.  “Fizemos um grande trabalho chamando a atenção para o pertencimento, mostrando aos moradores que eles pertencem àquele local e que não tinham que desistir de suas origens”, relata.  Reuniões, encontros, lives e outras ações foram realizadas pelo coletivo para conscientizar os moradores. Foi mostrado a eles a injustiça também no âmbito financeiro – enquanto o preço do metro quadrado da área era estimado em R$ 6 mil, a prefeitura colocou valor de R$ 120 o metro quadrado para fins indenizatórios da benfeitoria. “Criamos uma rede de articulação que mostrou para a sociedade que estamos aqui porque somos os donos e donas da terra e exigimos ser tratados como parte da cidade que precisa de serviços e paga caro por eles.”

Crédito: arte sobre foto de Ismael Marques

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